quinta-feira, 21 de março de 2013


Gosto de quem tem brilho nos olhos,
D'aquele olhar vivo, que reluz quando cruza com outros olhos.
Não agrada-me olhos de santidade.
Gosto deste olhar de canto, safado encanto.
Deste olhar que brinca com o alheio,
que flerta com o desconhecido,
que fala no silencio.
Gosto de olhos que sorriem,
sozinhos, sem lábios a auxiliar.
Me agrada a safadeza do olhar,
O perigo que ele traz em si,
do infinito desconhecido a trocar.
Olhos são para mim, fonte de intensos desejos,
capazes de expressar infinidades de quereres.
Infinito a transbordar.
Desconhecido a encontrar.
Cúmplice a conversar.
Translado de segredos, vindos de profunda alma.
Marejados sentimentos, que em tua face se acalma.





terça-feira, 12 de março de 2013

Amizade devida


Nossa vida e história confundem-se unindo as pegadas que deixamos pelo caminho.
Caminhamos e crescemos juntos, compartilhando momentos pela vida a fora,
vida esta cheia de carinho e amizade, de sorriso e troca.
Ombro amigo que sempre presente se apresenta para ancorar um peito ferido,
um olhar desaguando, um soluço contido.
Uma presença de braço aberto, de sorriso eterno, de olhar verdadeiro.
Uma vivencia constante, longa e inquestionável.
Tantos momento perpassam essa amizade,
tantas existencias em uma só,
tanta verdade em um encontro,
tanto carinho selando algo tão belo.
Amizade que me da segurança e um porto seguro para repousar.
Afagando-me e alimentando meu ser tão sedento de sentimento.
Revigorando-me e trazendo sorriso aos meus dias.
Melhorando minha vida quando tudo parece perdido.
Tenho em você a continuidade do meu caminho e história,
aquele ser que tem a vida contando um pouco de mim,
que pode me levar vivo pela vida que segue.



domingo, 10 de março de 2013

Cântigo Negro - Maria Bethania






"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!"